Reflexões sobre ego, auto consciência e outras coisas. Parte 1.

Hoje vejo tudo sob uma perspectiva mais dilatada, na qual o ego não é mais um juiz onipotente guiando as minhas reflexões, comandando o que eu penso e até o mesmo as minhas ações diárias. Tenho dado muitas caminhadas e conversado muito comigo e sinto, nesse momento, que estou, finalmente, botando em prática muitas coisas que tenho estudado, pois, entendo que a leitura sem prática acaba sendo inócua e isso gera frustração, culpa, incompatibilidade entre o que se está aprendendo e a prática da vida diária.

- Parece óbvio isso, né irmão! 

- De fato parece bastante evidente que o conhecimento tende a mudar nossas vidas, modificar o modo como enxergamos as coisas ao nosso redor, mas isso, tenho compreendido agora, tende a não ser um processo automático.

- Mas deveria né. Explique melhor o que você pensa a esse respeito.

- Vejo muitas variáveis não consideradas quando tentamos mudar de comportamento, sendo os processos inconscientes, muitas vezes, sabotadores das mudanças que achamos queremos fazer.

- Me fale melhor desses processos, pois tá parecendo que somos vítimas deles.

- Em certo sentido sim, pois acabamos nos deixando arrastar e, comumente, não percebemos com clareza que estamos trabalhando contra os nossos próprios interesses como seres humanos.

- Será que somos vítimas de nós mesmos?

- Mais ou menos isso, mas vamos aprendendo a enxergar os "sinais da vida", mas antes disso sofremos, demasiadamente, por repetir sempre os mesmos erros.

- Isso é extremamente desgastante,  né irmão!

- Profudandamente frustrante e desgastante.

- Mas o que você acha que está por detrás de tudo isso?

- De uma maneira mais simples e didática, posso falar da repetição de padrões psíquicos, que geralmente são herdados da nossa família, especialmente dos nossos genitores, que, ainda que não percebamos, são as pessoas que mais influenciam nosso jeito de ser, de pensar, de agir, de funcionar mesmo. E, quando teimamos em negar isso, ficamos presos num círculo repetitivo de erros e temos sempre a impressão de estar andando círculo, sem nunca sair do lugar, embora estejamos sempre aprendendo alguma coisa com as experiências que vivenciamos.

- Isso é muito complexo né.

- Tão complexo que a maioria de nós não nos não damos conta disso e, após sofrer inúmeras vezes pelas mesmas razões, acabamos acreditando no engodo de que não somos capazes de mudar nosso jeito de ser. Daí, nos parece mais fácil fugir das nossas questões nos vícios que, aparentemente, tornam a nossa existência mais leve. Porém, as fugas só aumentam nossos tormentos, pois as demandas se acumulam, pois os problemas não resolvidos se somam a outros que pedem solução. Inclusive as questões oriundas dos mais variados vícios.

- Mas, será que  entramos num labirinto? Será que não há saída para isso?

- Não é bem assim, pois a vida sempre nos dá oportunidade de recomeçar, mas temos que ganhar consciência de como e por que motivo funcionamos de determinadas maneiras, mesmo sabendo que isso está nos levando a sofrer.

- Mas somente fazendo terapia podemos chegar a esse nível de autoconhecimento, não é mesmo? E pobre não têm dinheiro para fazer terapia.

- Eu diria que a terapia é o caminho mais viável, mas não o único. E mesmo ela poderá não dar resultado se a gente não estiver disposto a mudar nossa vida. Tem inúmeras pessoas que param de fazer terapia quando o (a) terapeuta começa a mexer nas feridas mais doloridas. Alguns o (a) chamam de loucos, de lunáticos e até guardam mágoas, alegando que perderam tempo e dinheiro.

- Mas, a qual a alternativa podemos recorrer?

- Vivemos num mundo repleto de informações e a internet nos abre perspectivas maravilhosas de aprendizado.

- Mas você acha que todos podem mudar sua vida com esse "mar de informações"?

- Todos podemos mudar, mas a maioria, talvez,  ainda não esteja preparada para isso, pois, o grande paradoxo é que, em meio a esse "mar de informações" há também muita desinformação, sendo esse mais um fator que leva muita gente ao sofrimento, pois as pessoas perdem o pouco foco que têm no seu processo de crescimento. 

- Mas isso muito mais complexo né...

- Bastante, mas isso representa mais um fator de sofrimento e a gente vê multidões surtando por aí pelas mais diversas razões, principalmente por causa de questões político-ideológicas. As pessoas cristalizam ideias e preferem viver numa bolha para não ser contrariadas nos seus pontos de vista. Mas será que esses pontos de vista são realmente seus ?

- Você está falando de manipulação né. Isso é uma coisa muito triste e comum nos dias de hoje.

- Sim. Situação que leva milhões de pessoas a agirem feito loucos para defender seus políticos de estimação, geralmente pessoas mega narcisistas, extremamente imaturos e sem caráter, mas que falam o que eles querem ouvir, virando, desse modo, seus heróis.

- Mas todos podemos cair nessa armadilha né.

- Não tenho nenhuma dúvida disso. E até aqueles que se acham muito inteligentes só porque já leram mais, podem estar presos nesses grilhões sem se darem conta.

- E por que isso acontece?

- Penso que é porque há pessoas muito soberbas, com um ego gigantesco, mas que dificilmente param para olhar no espelho sem máscaras, se propõem a ter um diálogo íntimo e sincero com seu "verdadeiro eu".

- Mas é possível as pessoas terem muita leitura e pouco discernimento da realidade?

- Não só é possível, como é muito comum. Penso que as universidades estão aborrotadas deles. E essa crítica funciona como um mea culpa, pois estou dentro desse pacote também.

- Mas você disse que está ganhando um pouco de conscientização de uma realidade mais profunda....

- De fato, estou começando a ver a vida sob uma perspectiva mais dilatada, mas ainda estou sujeito, e muito, a cair nas artimanhas do ego que luta diuturnamente para se manter no controle, para continuar sendo o capitão do meu navio. E ele tem muitos atrativos e, às vezes, se torna quase irresistível.

- Você acha que as pessoas, de um modo geral, estão sendo comandadas pelo ego ?

-  Estou há anos refletindo sobre isso e cada vez mais consolido essa visão de que isso é o grande problema de nós, seres humanos medianos para baixo. Somos dominados pelo ego e poucos de nós nos damos conta disso.

- Como você denomina o ego?

- Acredito, estudando Jung, que o ego é um falso eu que comanda nossas ações enquanto ainda não temos consciência do nosso eu maior ( que Jung chama de self) e então vamos vivendo do jeito que dá, muitas vezes sendo arrastados pela corrente.

- E você acha que o nosso jeito de pensar, aquilo que constrói a nossa identidade, também pode ser influenciado pelo ego.

- Cada dia acredito mais que tudo o que pensamos e somos ( ou que pensamos ser) está intimamente relacionado com o ego. Talvez, a repetição de padrões se aproveite disso.

- Mas é muito complicado então.

- Bastante complexo mesmo! Por isso, a necessidade premente de auto consciência. Ninguém pode fazer isso por nós. O (a) terapeuta não pode nos obrigar a fazer isso. Esse é um processo individual e intransferível. Porém, só conseguiremos fazer isso com muita leitura de mundo, principalmente, sobre o que somos, mas também lutando para nos livrar do que herdamos psiquicamente dos nossos familiares. É lógico que estou falando das coisas que atrapalham nossa vida, pois também herdamos coisas boas. 

- Mas isso pode demorar décadas...

- Do meu ponto de vista, pode demorar  muitas existências terrenas, isto é, estamos séculos e até milênios nessa busca por nós mesmos.

- Tô gostando do papo, mas tenho que ir agora. Noutras oportunidades, voltamos a a esse assunto.

- Tá bom. Também estou atrasado, mas adoro conversar com você. Até mais amigo Concius!

Até mais, Francisco!!

















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