Jorge e seu apego ao passado.

 


Jorge era emocionalmente alimentado pelas lembranças de um passado supostamente glorioso. Assim, não vivia o agora e afogava as mágoas com cerveja e muita música antiga. Alguns colegas ainda alertavam: 

- O passado não volta mais, querido  Jorge, o presente também merece sua atenção. Ao que ele sempre respondia: 

- O presente só tem a cerveja e alguns amigos que nos fazem lembrar o passado.  O respeito aos mais velhos não existe mais, a cultura é uma depravação só e a música é um lixo que nem vale a pena comentar.

Alguém ainda retrucou: 

- Mas você  conhece todas as músicas da atualidade para fazer um julgamento tão rigoroso? 

- Conheço o suficiente para saber que não há nada que valha a pena.

E Jorge seguia sua  vida nesse mal humor e nostalgia incontroláveis. Não tinha mulher, pois dizia não aceitar ser controlado por ninguém. Os irmãos tinham seus próprios interesses e dificilmente o procuravam. 

Os dois filhos já eram adultos e pouca ligação emocional tinham com o pai. Vivam suas vidas e também nunca eram procurados pelo pai.  

Restavam os colegas de copo que estavam todo fim de semana no mesmo bar e horário para ouvirem sempre as mesmas músicas.

Acontece que naquele sábado, ao chegar ao bar costumeiro, havia um jovem ouvindo músicas que não eram os flashbacks que eles apreciavam. O personagem em questão não era conhecido do grupo, mas era conhecido e querido do dono do bar. 

Comprou alguns créditos músicais e foi logo avisado  das características dos frequentadores que logo tomariam conta do local. O jovem pediu, então, mais trinta créditos e selecionou o que considerava os grandes destaques musicais da MPB (não necessariamente os  mais badalados e mais tocados nas rádios) e caprichou também com um seletivo grupo de bons valores internacionais.

Jorge chegou vinte minutos depois e seu humor azedeva à medida que ouvia Roberta Campos, Vanessa da Mata Ed Sheeran...

E alguns colegas o provocaram: 

- Nossa! Não é que estou gostando dessa música!  E Jorge com cara de poucos amigos:

- Não acredito que vocês estejam realmente gostando dessas musiquinhas. 

Reginaldo, amigo mais tolerante e paciente aduziu:

- Não podemos nos fechar numa bolha achando que não existe música boa na atualidade. Em todas as épocas há músicas boas e ruins.

E Jorge teve que ouvir até o fim a sequência interminável do "petulante" jovem, já que os colegas não aceitaram ir para outro bar. 

Depois das colocações  de Reginaldo e de outros colegas um pouco mais abertos, Jorge até ouviu com mais atenção algumas músicas que não lhe pareceram tão ruins.


Será que Jorge vai se abrir um pouco mais para o presente? Só o tempo diria. 


E vocês ? Já se depararam com algum Jorge?


Francisco Lima


Bom dia!!

 



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