Reconexão com minha essência.

 Durante muito tempo, atribuí meu auto isolamento quando criança, principalmente,  às questões externas, como, por exemplo, a incapacidade de viver num ambiente por mim supostamente considerado difícil demais,  me levando, então,  à autoproteção inconsciente, buscando fuga na minha mente repleta de fantasias e rica de imaginação. Ia nesses momentos para minha Neverland e esquecia tudo ao meu redor.

Hoje reflito melhor e penso que,   talvez,  possa ter um pouquinho de verdade nisso, mas as minhas reflexões desse momento,  em que busco expandir minha compressão da vida, me levam também a uma expansão de compreensão daquele fenômeno, pois entendo que tudo o que vivemos é antes de tudo interior, sendo o exterior um reflexo de como enxergamos a vida internamente.

- Mas uma criança não tem consciência disso!!

- Não tem mesmo, mas isso não muda essa premissa fundamental: estamos construindo nossa realidade o tempo todo com o que pensamos e hoje posso afirmar com mais propriedade: com o que pensamos, sentimos e agimos. Esse tripé deve caminhar junto e em harmonia.

- Parece simples, mas, penso, que, boa parte dos seres humanos ainda não chegou nessa compreensão.

- Talvez, mas isso, hoje,  me parece a base para encontrarmos sentido em nossa existência.

- Qual o sentido de termos reencarnado na terra, já que, como você, tenho certeza de que já vivemos outras existências na carne.

- Sempre chego a conclusão de que reencarnamos para nos conhecermos melhor e, em consequência, buscar corrigir os nossos erros e ter atitudes melhores. Todo o resto vem como consequência.

- É. Pensando bem, acho que faz sentido. Mas o que você pensa agora sobre as fugas mentais do menino Francisco?

- Penso que já reencarnei com essa propensão, talvez eu tenha me isolado socialmente num mosteiro, numa floresta ou num lugar ermo qualquer, ou seja, me tornei um ermitão por livre escolha ou me afundei na depressão.

- Você acha que são processos similares a depressão e o auto isolamento?

- O isolamento, antes de ser físico,  é mental. Acho que são processos bem parecidos sim, mas cada caso deve ser avaliado de acordo com suas peculiaridades.

- Você pensa que a culpa é a motivação exclusiva desse auto isolamento?

- Não exclusiva, mas é um elemento quase sempre presente dentro desses processos de busca de afastamento do convívio social. O que acho nesse momento é que, de uma forma ou de outra, as motivações egoicas podem estar presentes. Pelo menos é a minha forma de ver as coisas no meu atual estado de consciência.

- Claro. Mudamos de pensamento quando enxergamos as coisas por outros ângulos. Então, você acha que o menino já tinha esses condicionamentos internalizados ?

- Penso que sim e que, talvez, o ambiente externo em nada tenha influenciado, pois isso já era dele, ou seja, isso é uma característica minha até hoje. Aliás, hoje até vejo pontos positivos nessa minha propensão à introspecção.

- Mas a convivência social é fundamental para o nosso crescimento como ser humano.

- Eu sei disso, mas também adoro estar sozinho, refletindo, meditando sobre a minha vida, sobre as razões que me levam a agir dessa e não daquela forma. Não vivo mais sem esses momentos sozinho, comigo mesmo ou nesse diálogo com a espiritualidade e com meu eu maior, minha verdadeira identidade.

- Você me disse, certa vez, que se desconectou daquele menino, quando começou a ler bastante para buscar uma compreensão mais ampla da vida.

- Sim. Me desconectei dele em busca de uma identidade social completamente distinta, mas isso se mostrou um grande equívoco, pois vejo, hoje, que me desconectei da minha essência.

- O que leva a gente a fazer isso?

- São várias as motivações, mas a principal delas é a busca de aceitação social por meio da construção de uma nova identidade mais aceitável que o menino lerdo e pensativo, mas essas motivações egoicas nunca trazem bons resultados, pois nos levam a sofrer durante anos, décadas até a ansiedade começa a nos consumir por causa dessa desconexão com o o que somos, com nossa essência.

- O que mais esse processo de desconexão pode acarretar?

- Mergulhamos no torvelinho social nessa desenfreada que acaba se associando ao ter. As compras compulsivas podem estar associadas a isso e, então, passamos a valorizar o ter em detrimento do ser humano. Perdemos, pouco a pouco, a nossa humanidade em meio a esse caos em que se transforma nossa vida. Nos transmutamos de ser humano e ter humano. Daí, só uma conscientização mais ampla, uma reconexão com nossa essência pode restaurar nosso equilíbrio. Cheguei nesse ponto e estou cansado, esgotado de sofrer pelos mesmos motivos. 

- Mas acho que agora você está vendo a vida, seu jeito de pensar, sentir e agir de modo mais próximo da sua essência.


- Sim. Cheguei a um ponto em que não tem mais retorno. Penso que dar um passo para trás, hoje, vai causar mais transtornos, mais sofrimentos do que seguir em frente.

- Sim. Isso é porque você vai errar consciente né.

- Exatamente. O erro consciente gera muito mais sofrimento e penso que a persistência no erro pode fazer com que a vida ministre remédios mais amargos.

- O que seriam esses remédios mais amargos ?

- Um mergulho na depressão, o que representaria um grande retrocesso ou mesmo uma doença física que reduzisse drasticamente meu livre arbítrio. Então, acho que seguir consciente é melhor, muito melhor mesmo. Mas, vou parar por aqui, pois senão daqui há pouco isso vira o muro das lamentações.

- Que nada, irmão! Falar consciente das suas questões é bem diferente de se lamentar. Mas fique com Deus, irmão!!

- Valeu irmão! Fique com Deus também!!





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