Introspecção, convivência, sombras e desafios existenciais.
Estou vendo vivendo uma fase em que as prioridades estão mudando, as demandas do ego estão sendo criteriosamente analisadas e o fazer cotidiano tende a se despir das exigências excessivas de um mundo acelerado que mais mais parece um vulcão em erupção, pois tudo muda o tempo todo e ficamos perdidos, sem direção, sem discernimento.
O que está se desenrolando no meu horizonte de agora trás a perspectiva de uma vida mais simples, mais conectada com o que é essencial, menos ansiosa e, progressivamente, menos exigente das necessidades banais e mais conectada com a minha essência.
- Quer dizer que você pretende se isolar do mundo? Quer se transformar num ermitão?
- Entendo que não posso fazer isso, apesar de, às vezes, não achar uma ideia ruim.
- Então explique melhor...
- É que sinto viver uma mais conectada exige também aprender a viver bem em sociedade, pois ninguém cresce sem as contribuições que a sociedade pode lhe trazer eu sinto, no mais profundo do meu eu, que já cometi esse engano do auto exílio, do isolamento voluntário e isso não trouxe os melhores resultados.
- Então, você acha que precisa desenvolver melhor suas habilidades de convivência?
- Tenho convicção disso e por isso, acredito que uma verdadeira conscientização não prescinde dessa convivência saudável e do aprendizado que isso pode nos trazer.
- Mas você já me disse que é um sujeito dado à introspecção, que gosta de refletir, de conversar consigo e de buscar aprendizado dessa maneira.
- Essa é minha característica fundamental, mas percebi não ser suficiente para um mergulho mais fundo na minha essência. Eu já me achei meio auto suficiente, mas percebi que isso é grande engano, sendo mesmo uma armadilha da nosso ego que nos leva ao isolamento do mundo.
- Tem gente que se isola num lugar ermo para se conectar com sua essência e, às vezes, isso pode dar algum resultado.
- Cada caso deve ser analisado dentro da sua peculiaridade, pois as motivações de cada um são profundamente subjetivas, mas voltar ao convívio social é imprescindível para testar se o nosso isolamento trouxe aprendizado. Boa parte daqueles que se isolam do mundo podem estar fugindo do convívio alegando, muitas vezes, que as pessoas são complicadas demais. Mas isso é muito questionável....
- Não entendi muito bem.
- Quero dizer que muitas vezes esse isolamento se dá porque sabemos ( inconsciente ou conscientemente) do nosso potencial para cometer equívocos no meio da massa. Às vezes o isolamento é uma evitação, um medo de confrontar nossos aspectos sombrios.
- Você está falando das sombras segundo Jung ?
- Sim. Estou falando das coisas que queremos esconder até de nós mesmos e elas geralmente vem à tona no convívio com outras pessoas.
- E como elas podem aparecer?
- Num primeiro momento isso não é muito claro para a maioria das pessoas, pois se apresenta na forma de projeção e todos estamos fazendo isso o tempo todo sem sequer se dar conta.
- E como isso acontece?
- Principalmente quando você odeia certas características de outros seres humanos, acontecendo isso frequentemente. Para nós é difícil admitir, mas, nesses casos, é urgente, imprescindível mesmo que olhemos para dentro de nós para para ver o quanto daquelas características odiosas estão em nós.
- Isso é muito difícil. Você tem feito esse exercício?
- Tenho, meu amigo. Às vezes me pego me desmarcando, falando duras verdades para mim mesmo em voz alta, me chamando de hipócrita e tentando mudar a minha visão sobre certas coisas.
- Mas isso não pode acarretar problemas de auto aceitação?
- Não, pois quando fazemos esse exercício é porque estamos entrando num grau de consciência mais de acordo com a nossa realidade existencial. Então, começamos a nós enxergar melhor, vamos deixando cair as máscaras.
- Mas esse processo pode causar sofrimento?
- Eu não diria sofrimento, mas desconforto inicial que vai se transmutando em satisfação.
- Mas isso é longo processo né.
- Longo e de idas e vindas, mas de compreensão de que não dá mais pra voltar atrás.
- Por que?
- A frustração seria maior, pois estaríamos errando conscientemente. A auto cobrança aumenta e entendemos que seguir em frente, mesmo dando trabalho, gera menos transtornos. Por isso, só tenho a agradecer pelo que estou vivendo.
- Boa sorte, meu amigo!
- Obrigado por me ouvir. Estaremos sempre em contato.
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