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Diário de um favelado (Rótulos não refletem a realidade)

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  17 de fevereiro Meu irmão, Welington, faz aniversário de seis anos  hoje.  Sempre compramos um bolinho com refrigerante nessa ocasião, algo apenas simbólico para não passar em branco.  Como hoje vou trabalhar, eu mesmo vou comprar o bolo e o refrigerante na padaria onde trabalho. Talvez eu consiga um desconto com o Sr Manoel, pois, afinal, eu sou da casa. De noite a alegria é geral e há docinhos, alguns salgadinhos e até cervejas. Com a ajuda de todos, sempre se pode fazer muito mais. A solidariedade é o que ajuda a manter esse povo vivo e  alegre apesar de todas as adversidades.  O curioso é que a cerveja  está sempre presente em festas de crianças, o que parece um contra censo, pois se a festa é para crianças não deveria haver bebidas alcoólicas, pois crianças (pequenas) não bebem.  Fico com a opinião de um sujeito chamado Narciso, professor e amigo de alguns vizinhos nossos: - Na verdade a festa não é para as crianças, pois senão não teria be...

Diário de um favelado (indignação)

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  16 de fevereiro Disse anteriormente que um jovem chamado Marcelo tinha intenção de implantar um projeto social em nossa comunidade. Torço pelo êxito de tal tentativa, pois sei o quanto precisamos disso, já que a falta do que fazer leva muitas crianças e adolescentes a se perderem. Marcelo chegou à "associação de moradores"  logo depois de falar com a diretora da escola.  - Boa tarde! Me chamo Marcelo e gostaria de falar com o presidente da associação. - Boa tarde! Eu me chamo Mário e sou presidente da associação. Em que posso lhe ser útil? - Eu gostaria de ver a possibilidade de implantação de um projeto social aqui na comunidade. - Eu sou favorável, mas tem que ter o aval do chefe da favela. - Como assim? Pensei que fosse resolver a questão por aqui. - Em toda comunidade não se faz nada sem falar com os detentores do poder. - Mas isso é um absurdo! Não sei como fazer isso (para não dizer: "não vou me submeter a isso") - Eu faço a ponte. Nesse caso, a causa é nobr...

Diário de um favelado ( A esperança bate à porta)

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  15 de fevereiro Vejo tanta miséria, tanta gente desamparada pelo destino, mas ainda acho que a vida é um presente que Deus nos deu. Na riqueza é na pobreza é possível se encontrar pessoas infelizes, o que demonstra que não é o dinheiro que  traz a felicidade.  Um jovem bonito, aparentemente rico, embora sem querer ostentar nem demonstrar ostensivamente sua condição estava visitando a favela. Imaginei ser um daqueles usuários de substâncias tóxicas que decidiu comprar o produto direto da fonte. Mas não era isso. Ele tinha intenções nobres. Foi até a escola para conversar com Dona Teresa, a diretora, pois não é prudente ficar vagando sem rumo pela favela. Como fiquei sabendo do assunto tratado, vou reproduzir o diálogo aqui: - Bom dia! Meu nome é Marcelo e gostaria de saber sobre projetos sociais na comunidade. - Bom dia! Me chamo Teresa, mas acho que não sou a pessoa indicada para lhe ajudar, embora conheça bem as demandas da comunidade. - Só queria saber se há algum pro...

Diário de um favelado (crianças no tráfico)

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  14 de fevereiro Para morar na favela temos que ser muito resistentes, resilientes (aprendi essa palavra na aula de ciências ) e, acima de tudo, conscientes do caminho que queremos trilhar na vida. Não é fácil manter o foco diante de tantas adversidades e, por essa razão, não critico aqueles que acabaram se perdendo no meio de um caminho tão sinuoso. (Tô meio filosófico hoje né!). Fui abordado perto da zona conflagrada, caminho obrigatório para chegar em casa. Nessa região fica a boca e pode-se ver crianças e adolescentes que foram seduzidas pelo "movimento".  Estava distraído pensando em como seria a vida desses meninos e meninas num futuro hipotético quando: - Pera aí menor! - Algum problema? - Você não quer trabalhar com a gente? - Não é a minha praia. - Pensa bem. 150 conto por dia é três vezes mais que você ganha ralando naquela padaria. - Não tenho interesse. Rato, esse é o apelido do menino que me abordou, não tinha mais que desseseis anos. já estava no tráfico há mai...

Diário de um favelado (Kauane e o álcool ).

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  13 de fevereiro À noite fui à casa de Kauane e fiquei feliz ao saber que ela não tinha nenhum problema comigo. Nos beijamos de novo e eu estava cada vez mais envolvido. Muito mais mais do que deveria. A certa altura, ela tirou uma cerveja em lata da geladeira e me ofereceu: Quer um copinho? Não vai me dizer que a criança nunca bebeu? E não mesmo.  Dessa vez não menti. Não tinha uma relação muito amigável com a bebida. Detestava quando minha mãe bebia e vi que, talvez, fosse complicada a minha relação com Kauane devido a isso. Você não sabe o que está perdendo. Adoro a sensação de liberdade, a alegria que sinto depois de beber.  Mas quando vira vício fica complicado. Mas se a gente tiver medo de tudo não vive. Eu não sou medrosa como você. Não é medo. É que eu vejo até onde o álcoolismo pode nos levar. Eu jamais serei alcoólatra. Sou equilibrada. Todos dizem a mesma coisa.  Me arrependi dessa resposta, mas já tinha falado.  Já vi que vai ser difícil  namor...

Diário de um favelado (Volta às aulas, ansiedade e preocupação)

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  12 fevereiro  Finalmente as aulas voltaram e todos estavam ansiosos para o reencontro depois de quase um mês e meio. É estranho, mas parece que esse reencontro na escola tem algo de especial, pois todos sempre nos vemos pelas ruas da comunidade, mas, não sei por que razão, na escola parece que ficamos todo esse tempo sem nos vermos.  Eu, obviamente, queria rever Kauane e saber se a minha paixão era, de fato, correspondida. Continuar de onde paramos no dia anterior era o meu maior objetivo. Olhei para todos os lados e não a vi. Perguntei por ela para alguns colegas em comum e nada. O que terá acontecido?  Por que será que Kauane faltou logo no primeiro dia aula? Será que não foi à escola pára não me ver ? Fiquei apreensivo e não consegui prestar atenção ao que a professora falava. Só pensava na minha namorada. Será que ela também me considerava como seu namorado ? Fui ao banheiro e aproveitei para dar uma olhada nas turmas de oitavo ano. Kauane era do oitavo ano, e...

Diário de um favelado ( Primeiro beijo )

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  11 de fevereiro Nada como um dia após o outro. Ontem foi um dia terrível, mas hoje estou radiante. Kauane, é o motivo dessa minha súbita transformação. Ela é um ano mais velha que eu, mas disse que me admira, me acha esperto para a idade que tenho.  Estávamos conversando e ela, desinibida que só, foi logo direto ao assunto:  William, você já beijou alguém ? Para não passar vergonha, menti:  Claro que sim. E algumas vezes.  Então você já é experiente….. Fiquei meio sem jeito. Na verdade não tinha nada para ensinar nesse aspecto. Kauane não esperou mais. Partiu pra cima de mim e me lascou um beijo de língua. Fiquei extasiado. Era BV e nem passei pelo selinho. Foi beijo de língua direto.  Agora, acho que estou apaixonado por ela. Mas será normal se apaixonar depois de um único beijo? Será que ela também gostou do meu beijo? Ela disse que sim. Mas será que ela também está gostando de mim? Não vejo a hora de vê-la novamente. Me sentindo muito feliz!!